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Anapu 16 anos depois

Áreas que irmã Dorothy defendeu e custaram sua vida, seguem sendo alvo de invasões

Desde o assassinato de Stang, o estado brasileiro se viu pressionado a dar uma resposta às injustiças socioambientais

12/02/2021 06h25 Atualizada há 6 meses
Por: confirmanoticia Fonte: Com informações Mapa de Conflitos
Área de reserva legal desmatada ilegalmente em terras vizinhas ao PDS Virola-Jatobá (Foto:Roberto Porro)
Área de reserva legal desmatada ilegalmente em terras vizinhas ao PDS Virola-Jatobá (Foto:Roberto Porro)

Com seis tiros, sendo um na cabeça e sem chance de defesa, Irmã Dorothy Stang foi assassinada aos 73 anos, no dia 12 de fevereiro de 2005.  O crime foi encomendado por dois fazendeiros: Vitalmiro Bastos de Moura, o Bida, e Regivaldo Pereira Galvão, conhecido como Taradão. Os grileiros que brigavam por posse de terras pertencentes à União. Dorothy foi pega em uma cilada na estrada que leva ao lote 55 do PDS Esperança, lá ela se encontraria com representantes do Incra para discutir detalhes do Projeto de Desenvolvimento Sustentável (PDS) Esperança.

Ela lutava pela regularização da terra para famílias de trabalhadores rurais e combatia a violência das invasões ao projeto por grileiros, madeireiros e fazendeiros.  O crime foi punido anos depois, mesmo assim Bida se encontra em prisão domiciliar desde 2015. Taradão foi preso em abril de 2020, ele aguardou 14 anos em liberdade. Amair Feijoli, Tato, foi quem intermediou o acordo com os pistoleiros foi condenado a 18 anos de prisão, mas em 2010 passou a cumprir a pena em domicilio.

Os pistoleiros, Rayfran das Neves Sales, foi punido há 27 anos só que em 2013 ele passou a cumprir prisão domiciliar, já seu comparsa Clodoaldo Carlos Batista e o Eduardo tiveram uma pena de 17 anos e cumprem em regime semi-aberto.

A luta de Dorothy pode ser antiga, mas os problemas permanecem. Segundo o Incra (Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária). Hoje, o assentamento tem capacidade para 270 famílias, porém cerca de 100 a 150 famílias estão assentadas pelo Instituto, os demais são ocupantes irregulares e muitas esses eles não têm perfil para possuir terra em região de assentamento.  Ainda segundo o órgão, em 2019 as guaritas de vigilância foram retiradas, o que pirou a segurança. “Ainda hoje há diversas denúncias de extração ilegal de madeira, de invasão da reserva legal. Já houve ações para reintegração de posse de invasores, mas mesmo assim eles retornam”, explica o Incra. 

Segundo dados do Centro de Documentação da CPT (Comissão Pastoral da Terra) Dom Tomás Balduino), de 2005 a 2019 foram registrados 23 assassinatos em conflitos no campo no município de Anapu (PA).

Rosária Guzzo é do grupo de mulheres de Anapu e trabalhou ao lado de Dorothy. “Sinto muita saudade do sorriso puro, alegre, o jeito mago carinhoso de nos aconselhar levantar o nosso astral, nos incentivar a lutar. Somos gratas a deus pelo presente de ter convivido com ela durante muitos anos. Ela nos deixou muitos ensinamentos como ter Deus como centro de nossa vida, amar confiar e cuidar uns dos outros como irmãos”, declara. 

Para ela, durante esses 16 anos, pouca coisa mudou. “Os problemas continuam as dificuldades perseguições aos trabalhadores”. Por fim ela conta que o desejo é viver com dignidade, “que possamos viver sem medo, tendo nossos direitos respeitados, que esse também era o sonho de irmã Dorothy.

Números da 34º edição do Conflitos do Campo 2019, divulgados pela Comissão Pastoral em 2020, revelam que na Amazônia brasileira ocorre mais da metade dos conflitos e 84% dos assassinatos. A região é reconhecida não apenas como a maior reserva de recursos naturais do planeta, mas também como um local em constante disputa política, econômica, ambiental e social. 

PDS

Criados a partir de 2002 – em resposta às demandas de pequenos agricultores, ambientalistas e comunidades tradicionais por terra e desenvolvimento sustentável -, os Projetos de Desenvolvimento Sustentável (PDSs) de Anapu são considerados uma alternativa sustentável à reforma agrária tradicional e uma conquista dos movimentos sociais locais, que desde a década de 1970 lutam contra a invasão de suas terras e o desmatamento provocado por madeireiros e pecuaristas.

Desde o assassinato de Stang, o estado brasileiro se viu pressionado a dar uma resposta às injustiças socioambientais ali praticadas e tem agido pontualmente a fim de atender às demandas dos assentados: o MPF intensificou suas ações de fiscalização na área e o Ministério do Trabalho já realizou ações de combate ao trabalho escravo; o INCRA tem apoiado programas da assistência técnica e construção de moradias para as famílias e há notícias de que sua procuradoria tem atuado no sentido de combater a exploração ilegal de madeira dentro das áreas de reserva legal.

Todas estas ações, contudo, não impedem que fazendeiros, madeireiros e grileiros continuem exercendo seu poder na área e continuam a exploração ilegal dos recursos naturais que deveriam ser preservados e direcionados à exploração sustentável. Por esse motivo, os conflitos na região permanecem acirrados, e muitas famílias continuam com suas vidas e terras ameaçadas.

Irmã Dorothy

Em uma entrevista à Agência Brasil, Dom Erwin contou um pouco sobre Dorothy “Lembro-me perfeitamente da visita daquela senhora de vozinha mansa e sotaque estadunidense bastante acentuado.

Segundo ele, a freira alimentava o sonho de trabalhar entre os camponeses mais carentes da região. “Ela logo me avisou que queria trabalhar entre os pobres mais pobres. Brinquei e disse que como cidadã norte-americana, oriunda do aprazível estado de Ohio, certamente ela não conhecia a pobreza extrema. Falei logo da Transamazônica-Leste, região infestada de doenças tropicais onde vive gente que não tem onde cair morta. Ela nem me deixou terminar de falar e respondeu: 'Então eu quero ir'. Tentei ponderar: 'Mas a senhora não vai aguentar'. E ela: 'Deixe-me pelo menos fazer uma experiência'. Pensei que depois de poucas semanas viria pedir-me outra área ou então estaria já curtindo a primeira malária. Enganei-me redondamente”, relata dom Erwin.

 

 

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